Matérias / Entrevistas

VIRADA CULTURAL COM MUITA NOSTALGIA EM SP
(São Paulo, 16 e 17/04/2011)

Fernando Guifer

Antecipada em um mês, a Virada Cultural Paulistana dessa vez ocorreu durante as 24 horas que ligaram os dias 16 e 17 de abril. Este ano, as apresentações reuniram cerca de cinco milhões de pessoas (segundo a PM) e contou com mais de mil atrações entre músicos, artistas plásticos, circenses, comediantes, teatro de rua, cinema e uma diversidade absurda de público.

A principal missão da Comando Rock era dar uma geral no palco rock deste ano que migrou da avenida São João para a praça Júlio Prestes. Ali, aconteceria uma verdadeira celebração ao rock nacional dos anos 80, com Blitz, Plebe Rude, Frejat, a esperada milésima volta do RPM (foto), além de algumas atrações internacionais de peso, como P.O.D e Misfits.

E, para começar com o pé esquerdo, a Virada teve sua primeira baixa antes do início das apresentações: os norte-americanos do P.O.D cancelaram os shows que fariam na América do Sul dez dias após a confirmação da turnê. O motivo? Segundo publicou em seu Twitter, o guitarrista Marcos Curiel disse que a banda "está preparando material e deve voltar ao País em breve". Se isso é motivo nós não sabemos, mas ficou nítido o descontentamento dos fãs que não tiveram uma explicação que honrasse o respeito aos seguidores do conjunto.

Mas, a vida seguiu na Virada. Rita Lee deu início aos shows do palco "cracolândia" (ou Júlio Prestes) com uma ótima platéia já presente, mas foi às 2h da matina que o "bicho" começou a pegar por lá. O horror-punk do Misfits subiu ao palco e, ao contrário do P.O.D., não decepcionou a galera. Aliás, podemos dizer que "a galera" decepcionou o Misfits. Garrafas voavam de um lado para outro e, quando as grades de segurança já estavam sendo escaladas por alguns anencéfalos-aranhas, a banda já parecia constrangida e desconfortável no palco.

Lá embaixo, a polícia fazia o seu papel e sentava a borracha. Muita gente que não foi para brigar acabou sendo agredida de maneira gratuita, pagando pela imbecilidade dos outros. O Misfits, por sua vez, mandou um petardo atrás do outro: "Some Kinda Hate", "Skulls", "20 Eyes", "Astro Zombies", "Attitude", "Hybrid Moments", "I Turned Into A Martian" e "Saturday Night".

Hora de abrir o baú do rock brazuca. A essa altura já se via muito quarentões na platéia levando seus filhos com a camiseta do Restart como se dissessem: "olha filho, isso é banda de verdade!". E quem dava as caras por lá era a Plebe Rude, com Clemente (Inocentes) na guitarra ao lado do vocalista Philipe Seabra. Ambos mostraram uma energia invejável a muitas bandas adolescentes, reverenciaram a platéia e vários clássicos foram cantados até o ponto alto "Até Quando Esperar".

Frejat veio na seqüência e, com a banda toda de paletó, mostrou que seria um show tranqüilo. Iniciou os trabalhos com "Maior Abandonado" e mandou uma enxurrada de sucessos da carreira solo e da época com o Barão Vermelho: "Por Você", "Jardins da Babilônia", "Bete Balanço", "Puro Êxtase", "Amor Pra Recomeçar", "Exagerado", além de citações à Cássia Eller, Legião Urbana, Paralamas e Tim Maia. O calor ultrapassava os 30º graus e era possível ver o cansaço dos "virados-torrados" sedentos por mais rock. E tome Blitz!

Evandro Mesquita e seu time de cariocas subiram ao palco com exatos 20 minutos de atraso e, mesmo assim, as primeiras músicas estavam prejudicadas pelo péssimo trabalho da equipe que não conseguia arredondar o som, fato que deixou a banda visivelmente perdida. Mas Evandro Mesquita é "macaco velho" e tirou de letra os problemas técnicos e com sua simpatia de sempre colocou a galera para pular em "Weekend" e "Geme-Geme". Nesta última, o vocalista convocou aos céus uma sombra particular aos milhares de presentes, arrancando risos de felicidade pelo refresco.

Depois de "Alguém para Amar", mandou as engraçadas a lá Ultraje "Romance da Universitária Otária" e "Homem de Avental". A Blitz fechou com "A Dois Passos do Paraíso". Depois de muito tempo sem vir a terra da garoa, saíram com a platéia na mão deixando o jogo ganho para o RPM.

Oito anos depois do último show, o RPM surpreendeu pelo profissionalismo da sua equipe e pela musicalidade dos integrantes. Com um som perfeitamente equalizado e uma iluminação impecável, Paulo Ricardo, Fernando Deluqui, P.A e Luiz Schiavon subiram com status de banda do momento para encerrar a Virada Cultural de 2011.

Sucesso absoluto nos anos 80, dizem que o RPM assinou um contrato milionário que deve colocar à banda novamente no topo das paradas. Se isso é verdade ainda não sabemos, mas é fato de que muita grana está sendo investida neste retorno triunfal do quarteto que contará com o lançamento de um novo CD/DVD em breve.

A faixa chiclete "Vida Real", trilha do programa Big Brother Brasil, deu início ao show com um peso incrível e o tecladista Schiavon mostrando porque é o maestro do conjunto. Vieram "Rainha" e a nova "Crepúsculo". "Juvenília", "London London", e "Revoluções por Minuto". Mas os pontos altos do show foram com "Alvorada Voraz" e "Rádio Pirata", cantada até por alguns policiais que faziam a segurança do evento. O RPM fechou com "Olhar 43" e deixou os velhos fãs com uma sensação de nostalgia. Mais uma vez a galera voltou feliz para casa comemorando mais uma Virada Cultural "rocker" na terra da garoa.

Antes de cumprir a missão de passar a vocês as impressões do palco roqueiro da virada, demos um pulo no palco Estação da Luz onde aconteceria um encontro histórico entre a Orquestra Experimental de Repertório tocando com o Sepultura. Uma dobradinha incrível de "Refuse/Resist" cantada em uníssono pela galera deixou os presentes extasiados com a apresentação absolutamente redonda, provando cada vez mais a proximidade entre a música erudita e o peso popular do metal.

Na virada é assim: todos são iguais e não se olha religião ou raça, por isso mesmo que a cidade inteira se mobiliza em prol da diversão em família, com atrações para todos os gostos e, principalmente, uma maneira de descobrir novas formas de amar a música.

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